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14 de jun de 2016

GONÇALO COELHO: VOCÊ SABE QUEM FOI?


Um navegador de Felgueiras imortalizado em mapa de 1504
“Terra de Gonçalo Coelho”

Gonçalo Coelho, “fidalgo, cavaleiro da Casa Real”, é do ramo da árvore genealógica de uma das famílias que participaram significativa e ativamente da formação da nacionalidade portuguesa. O navegador é bisneto de Gonçalo Pires Coelho, 1º Senhor de Felgueiras, sendo esse o primogênito do célebre conselheiro de D. Afonso IV, Pedro Coelho.
Durante o processo da Expansão Ultramarina, os portugueses encontraram e documentaram povos e terras, nunca antes vistos, como assim se deu com o capitão-mor Gonçalo Coelho quando no comando da missão de reconhecimento da Terra de Santa Cruz efetuada em 1501. Como D. Manuel I manteve-se rodeado da grande maioria dos servidores escolhidos pelo seu antecessor e na continuação do processo dos Descobrimentos, também foi dos homens experimentados, que haviam rodeado D. João II, que o Venturoso Rei se serviu para comandar as armadas expedicionárias. Neste caso, terá sido Gonçalo Coelho o escolhido como capitão-mor para reconhecer a Terra achada por Cabral, a qual a princípio foi tomada por ilha. No reinado de D. Manuel I, os feitos do navegador felgueirense na costa brasileira não passaram despercebido na cronística portuguesa quinhentista. Mas embora tenha participado proeminentemente da Epopeia Ultramarina de Portugal no desbravamento marítimo da imensa Terra descoberta a oeste, seu nome é praticamente ignorado. Seus feitos não ecoam nos manuais escolares. A antiga Enciclopédia Mérito menciona que Gonçalo Coelho, foi “cosmógrafo e que em 1501, teve o encargo de reconhecer toda a costa sul-americana, explorando as terras e os portos deste continente, e devendo estudar também os costumes e os ritos dos indígenas”. Portanto, Gonçalo Coelho é o pioneiro das explorações marítimas no Atlântico meridional brasileiro, reconhecendo que a terra achada por Cabral, fazia parte de um novo e grande continente. Assim, a viagem de 1501 imortalizou Gonçalo Coelho e que na época, ele adquiriu o que poderá considerar-se um estatuto de herói.


gonçalo coelho

No entanto, o navegador Gonçalo Coelho é uma figura esquecida quer da história de Portugal quer da história do Brasil. Ele deveria ser figura relevante da historiografia dos dois países, quer pela aventura marítima que empreendeu quer pelo resultado daí advindo. Gonçalo Coelho, deveria figurar no patamar dos grandes símbolos inequívocos da tradição de Felgueiras, a exemplo de outro notável navegador, Nicolau Coelho. De maneira, que urge consumar a inserção de Gonçalo Coelho quer na literatura científica quer no discurso político, reavivando seu nome e seus feitos na história de Portugal, do Brasil, de Felgueiras e de Cabo Frio. Deve-se salientar que Gonçalo Coelho, é um personagem que deveria interessar à história oficial portuguesa e brasileira. A Dra. Manuela Mendonça, Presidente da Academia Portuguesa de História, assim escreveu sobre o mesmo: “... penso poder afirmar que Gonçalo Coelho foi homem privilegiado, tanto na corte de D. João II como com D. Manuel e D. João III. Grande parte da sua vida esteve ao serviço da atividade marítima, tanto em missões na costa africana como na Terra de Vera Cruz, mas muitos anos passou também, como homem de confiança dos monarcas, ligado à problemática econômica, ou da fazenda.”
O navegador felgueirense ao perscrutar o litoral e vias fluviais virginais de Santa Cruz, foi homenageado por um cartógrafo italiano: “Terra de Gonçalo Coelho chamada Santa Cruz”, uma referência onde se pactuam a designação insólita e aquela que se generalizou mais tarde. É necessário dizermos em detalhes: o cartógrafo Vesconte Maggiolo, em 1504, elaborou um mapa onde aparece identificado em dialecto genovês, o nome do navegador português: “Terra de Gonsalvo Coigo vocatur Santa Croxe”, em uma legenda escrita em caracteres maiúsculos, demonstrando e destacando que o cartógrafo evidenciava a intenção de se homenagear o capitão-mor responsável pela expedição descobridora de 1501. Dentro do contexto histórico de seu tempo, a pioneira viagem - de tão fecundos resultados - repercutiu positivamente sobre a imagem de Gonçalo Coelho, provocando o seu reconhecimento ao ser estampado num mapa de um dos principais cartógrafos da Península Itálica da época.
Quem se aglomerou na praia do Restelo, às margens do Tejo no ano de 1501 para se despedir dos tripulantes da expedição de reconhecimento da terra achada por Cabral, jamais poderia imaginar que ela não era uma ilha e sim parte de um novo continente. A este tempo, as descobertas portuguesas que já se davam por explorações geográficas sistemáticas, a exemplo da que foi efectuada por Gonçalo Coelho, visavam levantar todas as informações sobre as novas terras. Gonçalo Coelho era detentor de conhecimentos aritméticos, astronómicos e geográficos, e que aplicados no exercício da arte da navegação, culminou na sua formação em cosmografia - com estudos do cosmos e corpos celestes. A cosmografia pertencia a um restrito e novo corpus ligado a ciência náutica, onde o envolvimento dos cosmógrafos de Portugal com as navegações surge pela primeira vez, de forma mais ou menos explícita no século XVI. No tomo II da Biblioteca Lusitana, regista-se que Gonçalo Coelho era “muito perito na ciência da cosmografia” e que partiu por ordem de D. Manuel I para “explorar as situações das terras e partes da América novamente achada...”, saindo de Lisboa com o posto de capitão de “uma armada...”, chegando na América, “investigou com juízo de sábio e observação de curioso tudo quanto era digno de saber-se, não somente tomando posse daquela região em nome do seu soberano, como escrevendo em estilo claro e sincero a Descrição do Brasil”.
Ao poder examinar o mar, os rios e as terras, a flora e a fauna e os homens da Terra de Santa Cruz, o navegador Gonçalo Coelho contribuiu para o crescimento da “Cultura dos Descobrimentos”, núcleo "racionalista pragmático experiencial" da “Cultura Renascentista” portuguesa. O encontro de outros homens tão diferentes, pôs em relevo as diferenças de civilização, de costumes e de crenças. A “Descrição do Brasil” obra de Gonçalo Coelho, também mencionada por Barbosa Machado, caso o original não tivesse sido extraviado, viria contribuir para enriquecer o Renascimento e o Humanismo português. A escrever o que viu e sentiu quando no desbravamento da Terra de Santa Cruz, Gonçalo Coelho iria se juntar a galeria de notáveis autores portugueses que referiam-se a uma nova idade, separada dos antigos por uma “época bárbara”, e o ressuscitar dos valores clássicos. Ora, Gonçalo Coelho então acompanhava a conciliação do estilo clássico com o ambiente da Idade dos Mitos e dos Descobrimentos, ou seja, o difícil equilíbrio entre a base dos textos clássicos e as novas realidades que não apareciam descritas, mas que exigiam, enquanto novo desafio, de ser pensadas e ensinadas. A isto se pode chamar de reequação do conhecimento cosmográfico, a ser imposta pela presença de navios e homens em novas extensões oceânicas e terrestres, conquistando um riquíssimo cabedal de observações e experiências. Segundo o historiador Luís Felipe Barreto, nos campos da Geografia e da História Natural, os portugueses submeteram os conhecimentos da Antiguidade e da Idade Média à prova da experiência fundido numa grande fonte de informações de toda espécie, desmoronando-se os antigos mitos, como do "antimundo" e dos antípodas. O encontro de outros homens pôs em relevo as diferenças de civilização, de costumes e de crenças. No caso, a realidade observada por Gonçalo Coelho era-lhe totalmente original: a imensa terra e seus habitantes nus e antropófagos. As anotações que o navegador fez sobre o mundo espantoso de Santa Cruz, vinham refletir a identidade e o pensamento colonialista do reino português que foram construídos ao longo de séculos. No “Tratado Descritivo do Brasil”, uma das obras capitais do século XVI sobre o Brasil, escrita por Gabriel Soares de Sousa e publicada em 1587, diz o seguinte: “A estas partes foi depois mandado por Sua Alteza, Gonçalo Coelho com três caravelas de armada, para que descobrisse esta costa, com as quais andou por elas muitos meses buscando lhe os portos e rios, em muitos dos quais entrou e assentou marcos dos que para este descobrimento levava...”. Um desses marcos, foi chanfrado na atual Praia de Touros, no Rio Grande do Norte. Atualmente, esse famoso padrão feito de pedra lioz (um tipo raro de calcário que ocorre em Portugal, na região de Lisboa e seus arredores, nomeadamente no concelho de Sintra) se encontra em exposição no interior do Forte dos Reis Magos, tratando-se do patrimônio histórico mais antigo Brasil. Essas são as suas dimensões: 1,20 m de altura; 0,20 m de espessura e 0,30 m de largura. Na parte superior, contém a cruz da Ordem de Cristo e abaixo, as armas do reino de Portugal. O capitão-mor Gonçalo Coelho alcançou a virginal praia do atual Estado do Rio Grande do Norte, utilizando-se da obra-prima da engenharia náutica do seu tempo: a caravela de velas latinas, a “gigante dos mares que irão permitir as grandes navegações atlânticas", segundo o medievalista francês Jean Favier.


padrão
Marco assentado por Gonçalo Coelho na prais de Touros (RN)
Patrimônio histórico mais antigo do Brasil

O felgueirense Gonçalo Coelho, também foi o fundador do primeiro entreposto mercantil da costa brasileira (Cabo Frio), iniciando a pré-colonização do Brasil. Pela documentação existente entre 1505 e 1530, contendo as mais variadas ordens de pagamento ao navegador Gonçalo Coelho, pode-se concluir que se manteve ao serviço do rei D. Manuel I e também do seu sucessor, D. João III, seguramente até 1530. Pelo exposto, poder afirmar que Gonçalo Coelho foi homem privilegiado, tanto na corte de D. João II como na de D. Manuel e D. João III.

Fonte: Elísio Gomes Filho é historiador e autor de livros, com temáticas voltadas para os diversos períodos da História das Navegações e Naufrágios.



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